O que há de tão importante, no milagre da mulher com um fluxo de sangue, que levou três evangelistas a narrarem o mesmo milagre?
No que implicava uma mulher sofrer
hemorragia constante àquela época? Como dimensionar a fé em Cristo, daquela
mulher?
Em primeiro lugar, é essencial
deixar registrado que os milagres narrados pelos apóstolos, têm a função
precípua de levar os homens a crerem que Cristo é o Filho de Deus. “Jesus,
pois, operou, também, em presença de seus discípulos, muitos outros sinais, que
não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu
nome.” (Jo 20:30-31)
Marcos e Lucas
registraram que a mulher já havia gasto todos os seus bens com médicos, porém,
não puderam curá-la (Mc 5:26; Lc 8:43).
Já, os evangelistas Mateus e
Marcos destacam que a mulher sofria de hemorragia, há doze anos, e, ao ouvir
falar de Jesus, passou a acreditar que, se somente tocasse em suas vestes,
haveria de ser curada: “Porque dizia consigo: Se eu tão-somente tocar a sua
roupa, ficarei sã” (Mt 9:21).
Porém, havia um
entrave: a mulher, por ter um fluxo de sangue, pela lei de Moisés, era
considerada imunda: “Também a mulher, quando tiver o fluxo do seu sangue, por
muitos dias fora do tempo da sua separação ou, quando tiver fluxo de sangue,
por mais tempo do que a sua separação, todos os dias do fluxo da sua imundícia
será imunda, como nos dias da sua separação.” (Lv 15:25).
Os dias de separação de uma
mulher, durante a sua menstruação mensal, era de 7 dias, conforme Lv 15.19: Mas
a mulher, quando tiver fluxo, e o seu fluxo de sangue estiver na sua carne,
estará sete dias na sua separação e qualquer que a tocar, será imundo, até à
tarde.
Ela considerou, em seu
coração, que bastava tocar na orla das vestes de Jesus, que seria curada,
porém, como aproximar-se de Jesus, sem contaminar a multidão?
O que faria a multidão, caso
descobrisse que uma mulher imunda havia saído em meio ao povo e tocado,
deliberadamente, em todos que ela esbarrava? “Ou, quando tocar a imundícia de
um homem, seja qualquer que for a sua imundícia, com que se faça imundo e lhe
for oculto, mas, se o souber depois, será culpado” (Lv 5:3). Como aquela mulher
sairia de casa, se os vizinhos, que sabiam daquela doença, podiam recriminá-la,
por causa da lei? O que fariam os religiosos, se a descobrissem no meio da
multidão?
Além do
sofrimento físico e da desesperança, a mulher do fluxo de sangue não podia
participar das festas religiosas. Ela não podia ficar fora do templo, junto com
as outras mulheres e nem ir à sinagoga (Lv 15:25-33). Ela tinha que permanecer
confinada e isolada! Não podia relacionar-se com as pessoas, nem mesmo com os
seus familiares, pois, tudo o que ela tocava tornava-se imundo!
Embora ciente dos riscos de
ser surpreendida, a mulher entrou no meio da multidão e, ao chegar por trás,
tocou na orla das vestes de Cristo e, imediatamente, ficou sã. Foi quando Jesus
perguntou: “Quem é que me tocou?” (Lc 8:45).
Como deve ter
ficado apreensiva a mulher, quando foi descoberto o seu ato, de tocar nas
vestes de Cristo! – Será que Jesus vai me recriminar por ter saído em meio a
multidão sendo imunda? O que dirão os seus discípulos e a multidão?
Será que todos ali presentes serão obrigados a
se recolherem em casa, para cumprirem o tempo determinado na lei, para a
purificação? “Ordena aos filhos de Israel que lancem fora do arraial a todo o
leproso, a todo o que padece fluxo e a todos os imundos, por causa de contato
com algum morto” (Nm 5:2).
Enquanto as
questões se avolumavam na mente da mulher, Jesus continuava a perguntar: “Quem
é que me tocou?” (Lc 8:45 ). A multidão continuou negando e Pedro, juntamente
com o outros discípulos, tentaram dissuadir a Cristo, argumentando: “E, negando
todos disse Pedro e os que estavam com ele: Mestre, a multidão te aperta e te
oprime e dizes: Quem é que me tocou?” (Lc 8:45).
Jesus, porém, continuou a
olhar entre a multidão para ver quem havia lhe tocado! No verso 33, de Lucas 8,
fica nítido o quanto ela considerou, antes de revelar-se, pois, sabia que havia
contrariado a lei, indo até Jesus, em meio a uma multidão.
A mulher, ciente
do que havia ocorrido, com medo e tremendo, aproximou-se, prostrou-se diante de
Cristo e disse toda a verdade.
Foi quando Jesus a acalmou, ao
dizer: “Filha, a tua fé te salvou; vai em paz e sê curada deste teu mal” (Lc
8:48).
Por causa da
fidelidade de Cristo Jesus, que honra aqueles que n’Ele confiam, a mulher foi
salva, recebida por filha, curada do fluxo de sangue e despedida em paz. Toda a
confiança surgiu quando a mulher, simplesmente, ouviu falar de Jesus: “Ouvindo
falar de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou na sua veste. Porque
dizia: Se tão-somente tocar nas suas vestes, sararei.” (Mc 5:27-28).
A confiança dessa mulher nos
ensina que Jesus é a água viva, fonte inesgotável, pois, qualquer imundo que
tocá-lo é limpo da sua imundície. “Porém a fonte ou, cisterna, em que se
recolhem águas, será limpa…” (Lv 11:36).
Através dela,
somos ensinados que Cristo é a semente incorruptível, o Verbo encarnado, pois,
até mesmo os ‘cadáveres’ que sobre Ele caírem tornam-se limpos: “E se, dos seus
cadáveres, cair alguma coisa, sobre alguma semente que se vai semear, será
limpa.” (Lv 11:37)
A confiança não surge do
sofrimento ou, das mazelas diárias, antes, tem origem na palavra da verdade.
Ela passou a confiar, a partir do momento que ouviu acerca de Cristo (v. 27).
Quando ela ouviu acerca d’Ele e refletiu (v. 28), foi tomada de confiança, que
superou todos os medos (v. 33).
Se ela não
tivesse ouvido acerca do Cristo, jamais teria confiança, pois, a fé vem pelo
ouvir e o ouvir a palavra de Deus (Rm 10:17). Ao ouvir, acerca daquele homem,
ela foi invadida por uma confiança tal que considerou que, se tão somente
tocasse nas suas vestes, ela seria curada.
A confiança que ela depositou
em Cristo era diferente da confiança que tivera nos médicos. A confiança nos
médicos levou-a a gastar tudo o que possuía, mas, a confiança em Cristo,
levou-a a desafiar as suas próprias crendices, as disposições da lei e a religiosidade:
aquele homem tinha poder para sará-la daquele mal.
Se a noticia,
acerca de Cristo, não houvesse operado uma transformação (metanóia) no modo de
pensar da mulher, jamais ela iria, intencionalmente, tocar em Jesus, pois,
estaria presa ao pensamento de que poderia contaminá-lo.
Após apresentar-se prostrada,
aos pés de Cristo, diante da multidão, e tendo declarado a sua intenção e
confiança, Jesus lhe disse: “Filha, a tua fé te salvou; vai em paz e sê curada
deste teu mal.” (Mc 5:34) Por crer que Jesus podia purificá-la daquele mal, a
mulher foi salva por Cristo e, em seguida, curada do fluxo de sangue.
O que salvou a
mulher? A ‘confiança’ dela ou, a ‘fé que se tornou manifesta’?
Ora, sabemos que quem salvou a
mulher foi Cristo, pois, ele é a fé que havia de se manifestar. “Mas, antes que
a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que
se havia de manifestar.” (Gl 3:23) Antes de Cristo ser anunciado. ela confiava
na lei e a confiança dela não podia salvá-la, nem do pecado e nem da
enfermidade, porém, quando ela confiou em Cristo, o dom de Deus, ela foi salva
da condenação herdada de Adão e foi curada da enfermidade física. “Porque, pela
graça sois salvos, por meio da fé e isso não vem de vós, é dom de Deus.” (Ef
2:8); “Jesus respondeu e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o
que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva.” (Jo
4:10)
Uma coisa é
certa: ‘confiança’, à parte da fé, que é Cristo, não salva. Confiar nos
médicos, na lei, na religiosidade, etc., nada produz, mas, diante da fé
manifesta, que é dom de Deus, se o homem confiar, será salvo.
O homem é justificado por
Cristo, a fé que havia de se manifestar, a fé que uma vez foi dada aos santos,
“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor
Jesus Cristo,” (Rm 5:1); “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé,
sem as obras da lei” (Rm 3:28).
Aquele que
confia no Verbo que se fez carne, o autor e consumador da fé, tem a vida
eterna, pois, a confiança advém da palavra de Deus, que é firme e permanece
para sempre, “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas, aquele que não
crê no Filho, não verá a vida, mas, a ira de Deus sobre ele permanece.” (Jo
3:36)
A crença da mulher a salvou,
porque ela creu naquele que tem poder para justificar o ímpio ou, seja, a
crença dela lhe foi imputada como justiça, assim, como ocorreu com Abraão.
“Mas, aquele que não pratica e crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe
é imputada
como justiça.” (Rm 4:5 ); “E
creu ele no SENHOR e imputou-lhe isto por justiça” (Gn 15:6).

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